Cemitério dos Pretos Novos: Poltergeist
No meio da reforma, família carioca descobre que mora em cima de um cemitério de escravos
Quando
os empresários Ana Maria de la Merced e Petrucio dos Anjos resolveram
fazer uma reforma no quintal de sua casa, no número 36 da rua Pedro
Ernesto, Gamboa, centro do Rio de Janeiro, não imaginavam que se veriam
numa cena digna do filme de terror Poltergeist – por sorte, sem direito
aos fenômenos paranormais. Ossos, fragmentos de crânios e dentes
começaram a sair dos buracos cavados pelo pedreiro, assustando as três
filhas do casal. Só que a família não mora em cima de um cemitério
índio, como no filme, e sim sobre uma parte do Cemitério dos Pretos
Novos, sem vestígios ou localização confirmada até o dia da obra.
Lá
eram enterrados os africanos recém-chegados, ou “pretos novos”, que
morriam ainda nos armazéns do mercado de escravos – isso depois que o
comércio escravista passou para a rua do Valongo, em 1769. Antes, quando
o mercado operava na atal rua 1º de Março, os enterros eram no Largo de
Santa Rita.
O cemitério funcionou de 1779 a 1831. Foi desativado
depois da promulgação da lei que proibia o tráfico de escravos. Na
época, o Rio concentrava a maior população urbana de negros escravos do
mundo. E, apesar da lei, eles continuaram chegando até 1850.
Havia
outro bom motivo para a desativação do cemitério: as reclamações dos
moradores locais, incomodados com o cheiro dos corpos amontoados e com
medo de uma possível disseminação de doenças. Segundo relatos da época,
os cadáveres eram cobertos por tão pouca terra que às vezes a chuva os
descobria e eles ficavam amontoados por vários dias. E os enterros eram
muitos: o livro de óbitos da Igreja de Santa Rita registra cerca de 4
mil só entre 1824 e 1830.
A descoberta transformou a região em
sítio arqueológico. Afinal, este é o único cemitério exclusivo para
“pretos novos” de que se tem notícia nas Américas. A reforma da casa foi
cancelada e a família e seus vizinhos continuam a viver sobre os
mortos. “Foi um achado importantíssimo”, afirma a arqueóloga Eliana
Teixeira de Carvalho, que esteve à frente do trabalho realizado pelo
Departamento Geral de Patrimônio Cultural da cidade. “Localizou-se
espacialmente um marco histórico do Rio. Mas não houve escavações, já
que há casas lá hoje em dia, e sim o salvamento de ossos de no mínimo 28
pessoas de origem africana”, diz.
O exame dos dentes encontrados
deu indicações da procedência dos escravos ali enterrados: muitos
trazem entalhes típicos de etnias da África do Sul e de Moçambique. As
cerâmicas, contas e conchas enterradas com os ossos também revelaram
muito sobre os negros vindos da África. “Esses elementos mostram que
mesmo os escravos que não tiveram tempo de se integrar à sociedade
brasileira adotavam algum ritual fúnebre”, afirma a historiadora Cláudia
Rodrigues.

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