Bruxas de Salém refere-se ao episódio gerado pela superstição e pela
credulidade que levaram, na América do Norte, aos últimos julgamentos
por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts, numa noite de
outubro de 1692.
O medo da bruxaria começou quando uma escrava
negra chamada Tituba contou algumas histórias vudus (religião
tradicional da África Ocidental) a amigas, que, por esse facto, tiveram
pesadelos. Um médico que foi chamado para as examinar declarou que
deveriam estar embruxadas.
Os julgamentos de Tituba e de outros
foram efectuados ante o juíz Samuel Sewall. Cotton Mather, um pregador
colonial que acreditava em bruxaria, encarregou-se da acusação. O medo
da bruxaria durou cerca de um ano, durante o qual vinte pessoas, na sua
maior parte mulheres, foram declaradas culpadas e executadas. Um dos
homens, Giles Corey, morreu de acordo com o bárbaro costume medieval de
ser comprimido por rochas em uma tábua sobre seu corpo até morrer,
levando ao total 3 dias. Foram presas cerca de cento e cinqüenta
pessoas. Mais tarde, o juiz Sewall confessou que pensava que as suas
sentenças haviam sido um erro.
Mister Parris, o pobre reverendo
de Salem, estava exasperado. Betty, a sua única filha de apenas nove
anos, acometida por uma série de estranhos espasmos, jogou-se
petrificada sobre o leito, negando-se a comer. Naquela perdida
cidadezinha, ao norte de Boston, não existiam muitos recursos além de um
velho médico que por lá se perdera. Chamado para diagnosticar a doença,
atestou para o aterrado pai que a menina estava era enfeitiçada e que
nada lhes restava a fazer além de uma boa e sincera reza. A conclusão do
doutor correu de boca em boca e em pouco tempo os pacatos habitantes do
pequeno porto tomaram conhecimento de que Satanás resolvera coabitar
com eles.
Simultaneamente outras garotas, as amiguinhas de Betty,
começaram a apresentar sintomas semelhantes aos da filha do clérigo.
Rolavam pelo chão, imprecavam, salivavam, grunhiam e latiam. Foi um
pandemônio. Pressionado a tomar medidas, Parris resolveu chamar um
exorcista, um caçador de feiticeiras, que prontamente começou sua
investigação.
No século XVII, poucos punham em dúvida a
existência de bruxas ou de feiticeiras porque uma das máximas daqueles
tempos é de que "é uma política do Diabo persuadir-nos que não há nenhum
Diabo".
A inquisição
Inquiridas por
Cotton Mather, que iria se revelar uma espécie de Torquermada americano,
as garotas contaram que o que havia desencadeado aquela desordem toda
fora uns rituais de vodu que elas viram Tituba fazer. Essa era uma
escrava negra que viera das Índias Ocidentais, e que iniciara algumas
delas no conhecimento da magia negra. Durante o último longo inverno da
Nova Inglaterra, ela apresentara várias vezes os feitiços para uma
platéia de garotas impressionáveis. Educadas no estreito moralismo
calvinista e no ódio ao sexo que o puritanismo devota, aquele cerimonial
animista deve ter despertado as fantasias eróticas nelas. Provavelmente
culpadas por terem cedido à libido ou apavoradas por sonhos eróticos,
as garotas entraram em choque histérico. Seja como for o caso, merecia
ser ouvido num tribunal. Toda a Salem se fez então presente no salão
comunitário.
O fim da caçada
Deteve-se a
matança em Salem quando as denúncias envolveram figuras eminentes da
colônia, tal como a esposa do governador de Massachusetts e o pastor
Samuel Willard, presidente do Harvard College. Enquanto a arraia-miúda
foi enclausurada, acusada de práticas escusas, poucos se indignaram. O
basta naquilo tudo foi dado quando os dedos dos fanáticos ousaram
apontar para a elite local. Ainda em oito de outubro de 1692, circulou
uma carta redigida por um intelectual da região, Thomas Brattle, que se
horrorizara com os enforcamentos, revelando a loucura coletiva que
tomara conta dos aldeãos. Segundo Perry Miller, que estudou as idéias
que circulavam pelas colônias americanas daquele século, a letter de
Brattle teria sido o primeiro documento iluminista produzido na América
do Norte, pois criticou veementemente os prejuízos do fanatismo
religioso. Entre outras coisas, Battle escreveu: "temo que os anos não
apagarão essa desgraça, esta nódoa que essas coisas lançaram sobre nossa
terra." E os processos dos endemoniados de Salem assim como começaram,
num repente terminaram.

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